Finalmente vou comecar a falar daquilo que de melhor se faz em Los Alamos: ciencia...
Desde a invenção do computador, na década de 40, que o homem se tem questionado sobre a possibilidade desta máquina desenvolver, aquilo a que chamamos, inteligência. Ninguém tem dúvidas que o computador é capaz de realizar tarefas que requerem inteligência por parte de um ser humano, como somar e subtrair números. Mas os computadores parecem ter dificuldades em realizar outras tarefas que os humanos concretizam sem problemas como aprender uma linguagem, comunicar, viajar na confusão de uma cidade ou ter sentimentos. Mas a dúvida persiste: serão realmente inteligentes as máquinas fantásticas que temos ao nosso dispor?
Inteligência é um conceito vago que pode facilmente iludir um não especialista. Mas não acho necessário, nem acredito que se possa obter, uma definição exacta. A inteligência é como a beleza, não sabemos explicar mas não temos dúvidas quando estamos perante alguém com esse atributos.
Poucos irão ao ponto de atribuir inteligência a uma calculadora capaz de multiplicar números de 5 dígitos numa fracção de segundo. Porém, já não ficamos tão seguros perante um computador que consegue fazer previsões meteorológicas. A dúvida é ainda maior em relação ao Deep Blue. Poucos não sentiram um misto de fascínio e pavor perante esta máquina que em 1997 derrotou o campeão mundial de xadrez. Indiscutivelmente, ganhar um torneio de xadrez é uma proeza só ao alcance dos melhores, quanto mais quando o adversário é o campeão mundial. Mas será o Deep Blue uma máquina “inteligente”?
Um dos problemas de lidar com conceitos vagos, como inteligência, é a dificuldade de se chegar a um consenso dado que cada cabeça tem a sua sentença. Mas não é preciso muita inteligência para chegar à conclusão que o Deep Blue é uma máquina "estúpida". É que toda a inteligência desta maravilha tecnológica está nos programadores que tiraram partido da rapidez de processamento para desenvolver um conjunto de regras, ou algoritmo, capaz de explorar um número avassalador de possibilidades do jogo para lá das possibilidades de qualquer humano. O mérito está também nos engenheiros e cientistas que construíram essa máquina. De resto, o que separa esta máquina de uma calculadora é basicamente a velocidade e a complexidade dos programas que é capaz de processar.
Todas as máquinas modernas que fazem coisas fantásticas desde comunicar, guardar informação, prever, ou até serem capazes de nos sugerir um livro para comprar, não passam de meras ferramentas criadas para implementar algo totalmente projectado pela inteligência humana. A um nível abstracto pouco as distingue de uma chave ou um martelo, criados para desempenhar um propósito totalmente planeado e idealizado por nós.
Mas o cérebro humano não é também, em última análise, um gigantesca máquina de calcular que soma e subtrai impulsos nervosos que chegam a cada neurónio? A resposta é afirmativa. Então onde está a diferença? A diferença está na forma como processamos os dados. Vejamos novamente o caso do Deep Blue, capaz de prever 200 000 jogadas possíveis por segundo e calcular, com base num algoritmo previamente programado, qual dessas jogadas lhe daria mais vantagem. Como o cérebro humano é incapaz destas vertiginosas velocidades de cálculo, recorre a estratagemas mais subtis para prever a melhor jogada de entre um enorme universo de possibilidades. Usa, não força bruta, mas estratégia. Ou seja, não faz como a máquina que estuda jogada a jogada, mas olha para as posições das peças no tabuleiro como um todo delineando estratégias globais. Como se fosse um general que com base na posição do inimigo, esboça um esquema geral de ataque ou defesa, não prevendo todas as possibilidades possíveis se movimentasse um a um os seus milhares de homens.
Além disso o xadrez é um mau exemplo para se aferir a inteligência. Porque? Porque é um jogo “limpo”, ou seja, as regras são bem conhecidas e não podem ser violadas, o número de possibilidades, embora grande, é finito, conhece-se o objectivo, é um jogo fechado entre 2 jogadores e quando um ganha o outro perde. A vida real é um jogo mais “sujo”: não se conhecem todas as regras, o tabuleiro é dinâmico, as possibilidades infinitas, os objectivos indefinidos e não é um jogo de soma nula, ou seja, o que um ganha não é o que o outro perde. Pode até dar-se o caso de ambos poderem ganhar.
Se quisermos construir uma máquina realmente inteligente é na vida real que ela deve ser posta à prova. Mas nesta arena os resultados dos computadores têm sido decepcionantes. Tarefas simples, até para uma formiga, como navegar num labirinto evitando obstáculos, permanecem um desafio para as máquinas mais sofisticadas que somos capazes de produzir. Limitam-se a processar cegamente milhões de bits por segundo ignorando se isso é parte de uma imagem, de uma equação ou de um poema de amor.
Não será possível construir máquinas que ultrapassem o estatuto de ferramentas e se tornem verdadeiramente inteligentes, capazes mesmo de nos surpreender? Acredito que a resposta é um sim claro. Mas terá de ser outro tipo de máquinas, desenhadas para trabalhar de uma forma totalmente distinta daquela que a estamos habituados. Serão capazes de aprender sem terem praticamente necessidade de um programador e, pela primeira vez, poderemos ter motivos para as recear.
No próximo artigo irei falar de algumas pistas do que podem ser essas máquinas.
Posted by asv133 at março 30, 2004 12:45 AM