“Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?”
T. S. Eliot
As crónicas anteriores deixaram-me numa posição delicada, algo semelhante àqueles profetas que anunciam a boa nova que irá salvar o mundo e depois ... O leitor certamente não deve estar à espera que eu apresente aqui de bandeja um plano detalhado de como construir uma máquina inteligente. Se o soubesse fazer certamente já o teria tentado e agora não precisaria de matar mais neurónios para sobreviver.
Antes da apresentar a minha perspectiva herética sobre o tema vou falar um pouco sobre a máquina mais complexa que existe, o cérebro - pelo menos o meu que ainda não consegui perceber em 37 anos. Vamos começar, bem ao jeito dos vendedores de “banha da cobra”, por quebrar alguns mitos.
Mito 1: O cérebro é uma máquina que apenas realiza operações lógicas entre símbolos. Esta versão mecanicista do cérebro é a que nos é ainda predominantemente apresentada em inúmeros exemplos com várias cores e sabores. O velho fantasma da máquina de Turing a processar símbolos de trás para a frente, realizando milhões de operações de somar, subtrair e comparar, parece não arredar pé do nosso imaginário do que é inteligência. É pena! Não obstante o tremendo êxito que estas máquinas alcançaram, elas estão mais distantes de um cérebro humano do que está uma simples bactéria.
Mito 1a: O cérebro é uma máquina que estabelece mapas entre inputs e outputs Uma outra versão à engenheiro, do mito anterior que entra em contradição com recentes observações. Na verdade, verificou-se que a maior parte de actividade no cérebro não é induzida pela informação sensorial. Em tarefas de reconhecimento e decisão é o cerebro que procura quais os inputs relevantes. Isso é fácil de perceber dado o número infinito de inputs disponíveis. Só alguns aspectos são relevantes, e a dificuldade não está em processá-los mas antes em ignorá-los. Por exemplo, quando vamos a conduzir ignoramos quase tudo o que chega aos nossos olhos, a textura exacta da estrada, ou a vegetação circundante, as nuvens, o vento, ou a cor dos outros veículos. Apenas verificamos se o pavimento não tem buracos ou obstáculos e se há carros à nossa frente. Portanto esta história de mapas entre entradas e saídas é útil para os engenheiros construírem computadores mas serve para o cérebro (excluindo eventualmente alguns aspectos mais básicos relacionados com o sistema motor). Não há propriamente uma relação de causa/efeito dos primeiros para os segundos mas a informação flúi nos dois sentidos formando uma coisa estranha que se chama significado e que é a chave para fazer dispositivos inteligentes.
Mito dois: inteligência é sinónimo de raciocínio lógico, ser capaz de seguir regras, fazer contas difíceis, resolver puzzles, jogar xadrez etc. Sem dúvida que estas são manifestações de inteligência, não uma coisa não é sinónimo da outra. Aliás, neste terreno as máquinas tradicionais já nos vencem à vontade.
Mito três: ser inteligente é ser capaz de produzir uma dinâmica complexa. Isso é errado, pois existem muitos sistemas “estúpidos” que são capazes de gerar estruturas e comportamentos muito complexas. A chave não está na complexidade nem no sistema em si. Muitas vezes a complexidade resulta não do dispositivo mas da sua interacção com o ambiente, por exemplo as nossas reacções de feedback ao corrigir constantemente a trajectória de um automóvel num labirinto tortuoso.
Mito quatro: Inteligência é saber muito. O que conta não é a informação mas a capacidade de adquirir novos conhecimentos. Normalmente uma coisa é função da outra, mas nem sempre. A forma como temos a informação estruturada é o mais importante e a ajuda mais preciosa para descobrir coisas novas. Ver regularidades, associações e lançar novas hipóteses.
Mito quinto: os sentimentos são irrelevantes para a inteligência. Isto é um tema polémico estou convicto que sem sentimentos não podemos resolver problemas muito complexos com que nos deparamos no dia-a-dia. Por exemplo, escolher o parceiro para casar, ou uma cidade para viver, ou um emprego. Estes problemas são essencialmente insolúveis, não há forma alguma de decidir a melhor opção. Para estes casos os sentimentos dão uma ajuda (embora o custo a pagar é que o facto deles serem frequentemente falaciosos). Por muito que os filósofos e cientistas se esforcem por compreender o comportamento humano em termos de conceitos universais quantificáveis, a verdade é que nunca o vão conseguir porque o ser humano é necessariamente, um ser emocional. A distinção entre o bem e o mal não é algorítmica. E ja chega de mitos senao ainda me chamam de mitico...
Então o que há de notável no cerebro humano que permite desenvolver inteligência? Duas coisas: capacidade de abstracção e formação de conceitos e capacidade de extrair significado. A segunda faculdade é partilhada por muitos outros animais, mas as máquinas actuais não possuem nenhuma delas.
Mais nos próximos capítulos…
Posted by asv133 at abril 7, 2004 11:29 PM