abril 13, 2004

Maquinas Inteligentes VI

Quando olhamos para algo, procuramos regularidades, caracteres distintivos, padrões. Coisas que não tenham padrões visiveis são simplesmente ignoradas. A abstracção serve para simplificar e isolar essas regularidades. É uma forma de procedermos a análise, circunscrevendo um problema a alguns aspectos relevantes que enfiamos em símbolos (variaveis) ignorando todas as outras facetas: para as equacoes de newton um corpo passa a ser uma variável numa equação designada pela sua massa m. A forma, textura, cor e cheiro, são irrelevantes para descrever o seu movimento. Neste contexto, o objecto é pura e simplesmente m - uma invencao nossa...

Já pensaram que quase tudo e' inventado? A começar pelo conceito de número. “Transformar” uma coisa tão complexa como um carro num número é um acto de extrema invenção. Assim como é transformá-lo num objecto sólido como um paralelepípedo, que no fundo é como consideramos os outros automóveis quando vamos a conduzir – simples paralelepípedos (adoro esta palavra!) deslizando para a frente e para trás. Já pensaram o grau de abstracção que é preciso? Transformar objectos complexos em invenções é o pão-nosso de cada dia dos físicos e cientista em geral. É esta flexibilidade que nos dá um poder impar. Newton transformou planetas em … “pontos materiais”, Einstein transformou átomos em energia, e todos nós transformamos diariamente pessoas normais em deuses, outras em musas, algumas em monstros… Sem o sabermos somos uns D. Quixotes que ora vemos moinhos ora gigantes.

Todas as formas compreensão do mundo e de organização do pensamento têm necessariamente de ser aproximadas e abstractas. De outra forma não podemos lidar com tanta complexidade. É essa a sua força e a sua fraqueza. Ao contrário do que pensam os engenheiros, o nosos cérebro não é uma máquinas de “processar” a “realidade”. É sim uma máquina que é capaz de INVENTAR a realidade. Ajustamo-la à medida dos nossos modelos ou como nos der mais jeito, não interessa. O importante é que criar um modelo que dê jeito para explicar alguma coisa e resolver algum problema demasiado complexo. Da mesma forma que o importante para os animais não é serem 100% perfeitos mas única e simplesmente serem capaz de sobreviver.

Não são só os cientistas que precisam de inventar modelos. Todos o fazemos constantemente e até os animais o fazem, embora a um nível menos sofisticado. Por exemplo, quando nos deparamos com algo novo esforcamo-nos por criar um modelo que explique o que os nossos olhos veêm. Quando conhecemos alguém, quer queiramos quer não, encaixamo-lo num modelo ou criamos um modelo novo. Quando vamos mudar um pneu, antes fazemos um modelo mental aproximado das operações que pensamos serem necessárias. Se não seguissemos esse modelo simplificado, a cada passo teríamos de testar todas as possibilidades e arranjar um algoritmo para ver qual a melhor ou a que dispendia menos energia. Talvez daí a uns meses tivéssemos o pneu mudado, ganho uns 100 Joules e perdído um ano da nossa vida… Estúpido!? Mas é precisamente assim que funcionam as máquinas “exactas”. Como não são capazes de construir modelos, exploram exactamente todas as milhões de possibilidades e determinam a melhor de acordo com um critério que o seu programador estabeleceu. É assim que funciona o Deep Blue mas de certeza que não é assim que funciona a minha cabeça…

Resumindo, a minha convicção é a seguinte:

uma máquina inteligente tem de ser sub-simbólica.

Por outras palavras, os símbolos não são a materia prima mas antes uma propriedade emergente, um produto do conhecimento, extremamente úteis para estruturar e lidar com a informação. São as etiquetas mas não propriamente o produto. Todas as operações lógicas / matemáticas que somos capazes de fazer com base neste símbolos são uma enorme vantagem, mas, por si mesmas, elas são vazias de sentido. São tão inuteis como alguém que disponha de ferramentas de alta-tecnologia sem possui a matéria prima.

Esta afirmacao e' de uma enorme heresia. Pensem bem no que estou a dizer... Se nao virem onde esta a heresia, entao e' porque me tem deixado a pregar para as almas. Pensem bem, e vao ver como isso e' a negacao de tudo o que nos tem ensinado sobre o que e' inteligencia e como ela se manisfesta. Estou a negar o Homo simbolico...

A verdadeira inteligencia não se faz com numeros mas com significado. Por isso, de pouco vale construir máquinas mais rápidas pois não é processando 0 e 1, nem x ou y triliões de vezes por segundo que alguma vez se poderá discernir nelas um rasgo de inteligência. E a pergunta é: como se pode construir então uma máquina sub-simbólica que não “engula” só 0s e 1s mas que possa saber o que eles significam? O primeiro passo é deixar de fazer delas umas escravas. Actualmente o tipo de problemas que queremos que elas resolvam são aqueles enfandonhos que nós são somos capazes, nao temos paciencia ou pachorra para resolver. Mas assim nao e' justo. Estamos a pedir-lhes demais, a ser muito directos.

Temos de começar por coisas mais básicas, como perceber o que é "cima" e "baixo", ou “comida” e “não comida”, escuro e claro. Vamos po-las ao nível da forma de vida mais elementar que existe: uma bácteria. Sem lhe dar definicões, nem ensinar alfabetos, nem regras ad-hoc. Deixemo-la “viver” e aprender num ambiente ao qual se tem de adaptar.

No proximo, e último capítulo desta saga, vou apresentar uma proposta, concerteza ingénua, mas pelo menos original, de como talvez se possa desenvolver uma, não lhe vou chamar máquina, antes … uma “criatura” dessas.

I’ll be back! Posted by asv133 at abril 13, 2004 07:15 PM

Comments
"Todas as operações lógicas / matemáticas que somos capazes de fazer com base neste símbolos são uma enorme vantagem, mas, por si mesmas, elas são vazias de sentido." Meu caro amigo Armando, você sabe que eu o admiro, mas tudo tem limites, homem... Começou tão bem e foi enviar uma rasteira destas para o público?? É claro que esta afirmação é herética, porque na realidade os símbolos não são a realidade, mas representam a realidade, e por isso, não são tão desprovidos de sentido assim! Criamos símbolos para podermos, vá lá, "modelizar" a realidade, de forma a ser mais fácil para nós fazer o "tratamento adequado" ao mundo que nos rodeia. As invenções de que falou são isto mesmo. O conceito! É impossível (na minha opinião!) entender a realidade sem antes a simbolizarmos, isto é, sem antes criarmos signos (ou símbolos) que a representem! A capacidade de abstracção do Homem reside justamente aí! Para as máquinas, não passam de símbolos, para nós, é uma abstracção da realidade! Se me saí mal, pelo menos tentei... Posted by: Júlio César Pinho at abril 13, 2004 09:37 PM
Ve, Julio, a heresia esta mesmo ai'. E' desconcertante, nao e'? Mas creia-me, que acredito tratar-se da mais pura verdade. Va la' que nao estamos na idade media, senao seria queimado vivo :-). Pense bem e leia de novo o meu texto... Armando, o herege... Posted by: armando at abril 13, 2004 09:52 PM
É com prazer que leio a sua forma de raciocionar Professor, e de referir que concordo com quase tudo o que disse. Acrescento umas questões seguinte ao que já foi dito: Na minha opinião, uma máquina inteligente(biológica ou não), só é verdadeiramente inteligente se e só se for capaz de questionar a realidade que observa e de onde extrai conhecimento. Saber o que este ou aquele símbolo significam não basta, caso contrário passamos para o nível do "“engula” só 0s e 1s", mas de uma forma mais requintada. Esclareço melhor: O que vemos e ouvimos pode não ser a realidade. Se alguém tiver a capacidade de projectar imagem, som,cheiro,etc para o meio que me rodeia, estou literalmente lixado, porque já estou a viver um conjunto de sensações que não são a verdadeira realidade. A maior parte dos cérebros(pelo menos, os que têm pouco uso) está "programado" para processar o que o rodeia e tentar extrair conhecimento desse meio. O cérebro inteligente é aquele que questiona se está de facto a funcionar direito, e procura corrigir a sua forma de raciocionar. O problema é que a correcção também já está pervertida pelo meio. Bem, ficarei atento à sua resposta para corrigir mais uma vez o meu. Um abraço, Mário Posted by: Mário Sousa at abril 29, 2004 08:48 AM
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Lembrar-se de mim?