Já pensaram que quase tudo e' inventado? A começar pelo conceito de número. “Transformar” uma coisa tão complexa como um carro num número é um acto de extrema invenção. Assim como é transformá-lo num objecto sólido como um paralelepípedo, que no fundo é como consideramos os outros automóveis quando vamos a conduzir – simples paralelepípedos (adoro esta palavra!) deslizando para a frente e para trás. Já pensaram o grau de abstracção que é preciso? Transformar objectos complexos em invenções é o pão-nosso de cada dia dos físicos e cientista em geral. É esta flexibilidade que nos dá um poder impar. Newton transformou planetas em … “pontos materiais”, Einstein transformou átomos em energia, e todos nós transformamos diariamente pessoas normais em deuses, outras em musas, algumas em monstros… Sem o sabermos somos uns D. Quixotes que ora vemos moinhos ora gigantes.
Todas as formas compreensão do mundo e de organização do pensamento têm necessariamente de ser aproximadas e abstractas. De outra forma não podemos lidar com tanta complexidade. É essa a sua força e a sua fraqueza. Ao contrário do que pensam os engenheiros, o nosos cérebro não é uma máquinas de “processar” a “realidade”. É sim uma máquina que é capaz de INVENTAR a realidade. Ajustamo-la à medida dos nossos modelos ou como nos der mais jeito, não interessa. O importante é que criar um modelo que dê jeito para explicar alguma coisa e resolver algum problema demasiado complexo. Da mesma forma que o importante para os animais não é serem 100% perfeitos mas única e simplesmente serem capaz de sobreviver.
Não são só os cientistas que precisam de inventar modelos. Todos o fazemos constantemente e até os animais o fazem, embora a um nível menos sofisticado. Por exemplo, quando nos deparamos com algo novo esforcamo-nos por criar um modelo que explique o que os nossos olhos veêm. Quando conhecemos alguém, quer queiramos quer não, encaixamo-lo num modelo ou criamos um modelo novo. Quando vamos mudar um pneu, antes fazemos um modelo mental aproximado das operações que pensamos serem necessárias. Se não seguissemos esse modelo simplificado, a cada passo teríamos de testar todas as possibilidades e arranjar um algoritmo para ver qual a melhor ou a que dispendia menos energia. Talvez daí a uns meses tivéssemos o pneu mudado, ganho uns 100 Joules e perdído um ano da nossa vida… Estúpido!? Mas é precisamente assim que funcionam as máquinas “exactas”. Como não são capazes de construir modelos, exploram exactamente todas as milhões de possibilidades e determinam a melhor de acordo com um critério que o seu programador estabeleceu. É assim que funciona o Deep Blue mas de certeza que não é assim que funciona a minha cabeça…
Resumindo, a minha convicção é a seguinte:
Esta afirmacao e' de uma enorme heresia. Pensem bem no que estou a dizer... Se nao virem onde esta a heresia, entao e' porque me tem deixado a pregar para as almas. Pensem bem, e vao ver como isso e' a negacao de tudo o que nos tem ensinado sobre o que e' inteligencia e como ela se manisfesta. Estou a negar o Homo simbolico...
A verdadeira inteligencia não se faz com numeros mas com significado. Por isso, de pouco vale construir máquinas mais rápidas pois não é processando 0 e 1, nem x ou y triliões de vezes por segundo que alguma vez se poderá discernir nelas um rasgo de inteligência. E a pergunta é: como se pode construir então uma máquina sub-simbólica que não “engula” só 0s e 1s mas que possa saber o que eles significam? O primeiro passo é deixar de fazer delas umas escravas. Actualmente o tipo de problemas que queremos que elas resolvam são aqueles enfandonhos que nós são somos capazes, nao temos paciencia ou pachorra para resolver. Mas assim nao e' justo. Estamos a pedir-lhes demais, a ser muito directos.
Temos de começar por coisas mais básicas, como perceber o que é "cima" e "baixo", ou “comida” e “não comida”, escuro e claro. Vamos po-las ao nível da forma de vida mais elementar que existe: uma bácteria. Sem lhe dar definicões, nem ensinar alfabetos, nem regras ad-hoc. Deixemo-la “viver” e aprender num ambiente ao qual se tem de adaptar.
No proximo, e último capítulo desta saga, vou apresentar uma proposta, concerteza ingénua, mas pelo menos original, de como talvez se possa desenvolver uma, não lhe vou chamar máquina, antes … uma “criatura” dessas.